1. Introdução / Introduction
PT:
Bem-vindos ao quarto episódio de Beijos Poéticos, um videocast quinzenal
de M.ª Leonor Costa, autora do blogue Poesias da Nonô. Hoje vamos falar
do esqueleto do meu trabalho. Muitas vezes chamam-lhe gramática, outras vezes
"gramatiquês", mas para mim, é a arquitetura da alma. Hoje, a regra
curva-se à emoção.
EN: Welcome
to the fourth episode of Beijos Poéticos, a biweekly videocast by M.ª
Leonor Costa, author of the blog Poesias da Nonô. Today we’re going to talk about the skeleton of my
work. It’s often called grammar, other times what I call "grammarese," but to me,
it’s the architecture of the soul. Today, the rule bows to emotion.
📺Vê o Videocast / Watch the Videocast:
🎧 Ouve o Podcast / Listen to the Podcast:
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2.
O Beijo Clássico: Adélia Prado / The Classic Kiss
PT: Para
abrir esta construção, escolhi a voz de Adélia Prado e o seu poema
"O Alfabeto No Parque". Adélia ensina-nos que saber escrever não é
apenas dominar a gramática; é ter a coragem de capturar a "coisa" e
não apenas a palavra.
EN: To open this construction, I chose the voice of Adélia
Prado and her poem "The Alphabet in the Park." Adélia teaches us
that knowing how to write isn't just about mastering grammar; it’s about having
the courage to capture the "thing" and not just the word.
PT:
O Alfabeto No Parque
Eu sei
escrever.
Escrevo
cartas, bilhetes, lista de compras,
composição
escolar narrando o belo passeio
à
fazenda de vovó que nunca existiu
porque
ela era pobre como Jó.
Mas
escrevo também coisas inexplicáveis:
quero
ser feliz, isto é amarelo.
E não
consigo, isto é dor.
Vai-te
de mim, tristeza, sino gago,
pessoas
dizendo entre soluços:
‘Não
aguento mais.’
Moro num
lugar chamado globo terrestre
onde se
chora mais
que o
volume das águas denominadas mar,
para
onde levam os rios outro tanto de lágrimas.
Aqui se
passa fome. Aqui se odeia.
Aqui se
é feliz, no meio de invenções miraculosas.
Imagine
que uma dita roda-gigante
propicia
passeios e vertigens entre
luzes,
música, namorados em êxtase.
Como é
bom! De um lado os rapazes,
do outro
as moças, eu louca pra casar
e dormir
com meu marido no quartinho
de uma
casa antiga com soalho de tábua.
Não há
como não pensar na morte,
entre
tantas delícias, querer ser eterno.
Sou
alegre e sou triste, meio a meio.
Levas
tudo a peito, diz minha mãe,
dá uma
volta, distrai-te, vai ao cinema.
A mãe
não sabe, cinema é como dizia o avô:
‘cinema
é gente passando.
Viu uma
vez, viu todas.’
Com
perdão da palavra, quero cair na vida.
Quero
ficar no parque, a voz do cantor açucarando a
[tarde...
Assim
escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa.
EN: The Alphabet In The Park
I know how to write.
I write letters, notes, shopping lists,
school essays narrating the beautiful trip to
grandma's farm that never existed
because she was poor as Job.
But I also write inexplicable things:
I want to be happy, that is yellow.
And I can’t, that is pain.
Go away from me, sadness, stuttering bell,
people saying between sobs:
‘I can’t take it anymore.’
I live in a place called planet Earth
where one cries more
than the volume of the waters called the sea,
where rivers carry just as many tears.
Here people starve. Here people hate.
Here people are happy, amidst miraculous inventions.
Imagine that a so-called Ferris wheel
provides rides and vertigo
among lights, music, lovers in ecstasy.
How good it is! On one side the boys,
on the other the girls, me crazy to get married
and sleep with my husband in the small room
of an old house with wooden floors.
There is no way not to think of death,
among so many delights, wanting to be eternal.
I am happy and I am sad, half and half.
You take everything to heart, says my mother,
go for a walk, distract yourself, go to the movies.
Mother doesn’t know, cinema is as grandfather used to
say:
‘cinema is people passing by.
Seen it once, seen it all.’
If you’ll pardon the expression, I want to dive into
life.
I want to stay in the park, the singer’s voice
sugaring the
[afternoon...
Thus I write: afternoon.
Not the word.
The thing.
3.
A Minha Gramática / My Grammar
PT: Na
escola, ensinam-nos a ter medo de errar, como se a gramática fosse uma prisão.
Mas na poesia, o erro pode ser a parte mais honesta de um verso. No meu blogue,
trato-te por tu porque a minha gramática é a da proximidade.
EN: In school, they teach us to be afraid of making
mistakes, as if grammar were a prison. But in poetry, the mistake can be the
most honest part of a verse. In my blog, I address you as the familiar you because
my grammar is of proximity.
PT:
A Minha Gramática
Não me
fales em gramatiquês,
em
normas de chumbo ou de frio.
Eu trato
o meu leitor por tu,
como
quem olha o curso de um rio.
O meu
sujeito é sempre o amor,
o verbo
é um tempo de entrega.
O ponto
final?
É uma
dor que o meu verso teimoso nega.
Não me
prendas em conjunções,
nem me
dês advérbios de modo.
Eu vivo
de interjeições,
mergulho
na língua, de rodo.
Prefiro
a vírgula que respira,
o hiato
de um beijo suspenso.
A
gramática que me inspira
é o modo como eu te penso.
EN:
My Grammar
Don’t talk to me in "grammarese,"
in norms of lead or of cold.
I address my reader intimately,
like one who watches the course of a river.
My subject is always love,
the verb is an act of surrender.
The period?
It’s a pain that my stubborn verse denies.
Don’t trap me in conjunctions,
nor give me adverbs of manner.
I live on interjections,
I dive headfirst into language.
I prefer the comma that breathes,
the hiatus of a suspended kiss.
The grammar that inspires me
is the way I think of you.
👀 Ver também / See also
📺🎙️ Ep. 02 — Dia Internacional do Trabalhador / International Workers' Day
📺🎙️ Ep. 03— Linhagem de Gato Vadio / Stray Cat Lineage
🗞️🎥 Fora do blogue / Beyond the blog
💋 Videocast “Beijos Poéticos” / 💋 “Poetic Kisses” Videocast
📖 POESIAS DA NONÔ ZINE — poesia, emoção e arte digital / 📖 POETRY BY NONÔ ZINE — poetry, emotion, and digital art
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4.
Encerramento / Closing
PT: A minha gramática é a da proximidade. E a tua? Qual é a palavra que melhor te define? O convite continua aberto: gostavas de ler um poema neste espaço? Envia um áudio e uma breve apresentação para poesiasdanono@gmail.com. Quero que este videocast seja também a tua voz.
EN: My grammar is one of proximity. And yours? What is
the word that best defines you? The invitation remains open: would you like to
read a poem in this space? Send an audio and a brief biography to poesiasdanono@gmail.com. I want
this videocast to be your voice too.
✍️ Palavra Final / ✍️ Final Words
PT:
Lembra-te: o blogue é semanal, mas o nosso encontro em videocast é
quinzenal, às sextas-feiras, às 13h13.
EN: Remember: the blog is weekly, but our videocast
meeting is biweekly, on Fridays at 1:13 PM.
Gratidão e Beijos Poéticos
Gratitude and Poetic Kisses
M.ª Leonor Costa
(Poesias da Nonô)









